Guarulhos recebe etapa intermunicipal da Conae
Felype
Falcão
24/08/2009
A
cidade de Guarulhos, na região metropolitana de
São Paulo, foi o palco de mais uma etapa intermunicipal
da Conferência Nacional de Educação
(CONAE), promovida pelo Ministério da Educação,
nos últimos dias 21 e 22 de agosto.
O evento, que teve como tema e objetivo Construindo
o Sistema Nacional Articulado de Educação:
o Plano Nacional de Educação, Diretrizes
e Estratégias de Ação, foi
realizado no Centro Municipal de Educação
Adamastor e congregou, mais uma vez, professores, estudantes,
pais, entidades sindicais, movimentos sociais, conselhos
de educação, representantes do Poder Executivo,
gestores públicos e privados, empenhados em discutir
o novo PNE. Além de Guarulhos, participaram da
Conferência cidades do Alto Tietê e do eixo
Fernão Dias.
Na abertura da Conferência, o Secretário
de Educação do município, Moacir
de Souza, afirmou torcer para que as discussões
a serem realizadas apontem rumos para que a Educação
tome seu papel de prioridade na história do país,
através de um sistema articulado. O prefeito
Sebastião Almeida reforçou as palavras do
Secretário, frisando o orgulho da cidade em sediar
uma das etapas do evento.
A Conferência Magna teve início com a representante
do MEC em São Paulo, Iara Bernardi, traçando
as relações entre o PNE, o PDE e a Conae.
Ela explicou que a Constituição de 1988
já prevê um regime de colaboração
entre os sistemas de ensino, porém, ele não
está em prática devido a falta de regulamentação.
A lei não aponta quem deve pagar os recursos,
além de não oferecer mecanismos de acompanhamento
para o cumprimento de metas, destacou.
Bernardi ainda lembrou que o Brasil possui uma dívida
educacional com seus habitantes. Em números, são
60 milhões que não tem 14 anos de estudos
e 14 milhões de analfabetos. É preciso
haver uma lei de responsabilidade educacional para que
se garanta minimamente as condições de estudo,
já que o Governo Federal deposita mensalmente,
nas contas das prefeituras, o dinheiro do Fundeb,
finalizou.
Em seguida, o presidente da Comissão Organizadora
Estadual da Conae, José Adinan, salientou a importância
do evento. No país, ocorreram algumas conferências
nas décadas de 80 e de 90, mas elas eram segmentadas.
Não tinham representatividade e eram muito distantes
do MEC. Por isto, este é o mais amplo movimento
na área de Educação, capaz de congregar
professores, pais, alunos, conselheiros, gestores, dispostos
a mudar uma realidade na qual as três esferas não
conversam entre si. Não há um sistema articulado.
Adinan ainda enumerou alguns pontos que, segundo ele,
se revistos e colocados em prática, podem ser um
bom começo para as mudanças desejadas na
educação. Precisamos discutir o custo
aluno qualidade, os planos de carreira, a escola em tempo
integral, o fim da progressão continuada. Além
disso, há uma necessidade veemente de repensarmos
um currículo escolar voltado para a realidade do
estudante brasileiro, apontou.
Para o professor Pedro Paulo, representante dos movimentos
sociais, é preciso encarar a tarefa de se debruçar
sobre o texto-base para dialogar e, se possível,
superar e alterar as propostas que constam no Documento-Referência,
para que assim possa ser construído um verdadeiro
projeto político-pedagógico.
Hoje, miseráveis 4% de toda a riqueza do
país é destinado à Educação.
É uma realidade que precisa ser modificada, junto
ao fim das atuais políticas de meritocracia e tecnocracia,
que com os bônus por desempenho, entre outros termos,
transformaram os alunos e as escolas em empresas,
criticou, finalizando a palestra de abertura.
No dia seguinte, a tarefa de se debruçar sobre
o Documento-Referência da Conae foi colocada em
prática. Em seis salas, grupos se dividiram para
estudar e discutir os respectivos eixos temáticos.
Nossa equipe de reportagem percorreu cada um deles e mostra,
em tópicos, os itens mais abordados e que suscitaram
mais discussões:
Eixo
1 Papel do Estado na Garantia do Direito à
Educação Nacional
Para
a Profª. Drª. Mara Regina, da Unicamp, o Estado
deveria investir 8% do PIB para colocar a Educação
em um patamar civilizado, compatíveis com o tamanho
e com o potencial do país.
A Profª. Drª. Lisete Regina, da USP, destacou
a desqualificação das escolas públicas
pela mídia e criticou: a qualidade medida pelo
desempenho nas provas e não no processo; as avaliações
nacionais (SAEB, Prova Brasil, Enem, Enade, Encceja, Saresp,
Prova São Paulo); a compra de pacotes pedagógicos
prontos para beneficiar grandes empresas. Baseada no que
vem acompanhando, disse que as piores escolas no ranking
não tem o mínimo de estrutura e o clima
é de total desânimo.
Eixo
2 Qualidade da Educação, Gestão
Democrática e Avaliação
De
acordo com a Profª. Drª. Célia Maria
Benedicto, da Unifesp, o ambiente legal é favorável
ao desenvolvimento de modelos alternativos de educação.
Ela explica que há um cenário de políticas
voltadas ao apoio e atendimento das demandas locais e
nacionais de educação básica, mas
sem a qualidade desejada, nem profissionais valorizados,
nem a gestão democrática dos sistemas.
Na plateia, os pontos de maior discussão foram
em torno das eleições diretas para diretor
de escola, para que haja uma gestão mais democrática,
e a participação paritária entre
usuários e prestadores de serviço nos CNE,
CEE e CME.
Eixo
3 Democratização do Acesso, Permanência
e Sucesso Escolar
Neste
grupo, a Profª. Drª. Ana Lúcia Pinto,
da Unicamp, comentou alguns pontos do documento-referência
que tratam de negros pardos e brancos, além da
questão da gestão da educação
infantil. Já o Prof. Dr. Luís Bezerra Netto,
da UFSCar, afirmou ser contra a política de cotas.
Os debates giraram, principalmente, em torno da educação
infantil e das crianças na creche.
Eixo
4 Formação e Valorização
dos Trabalhadores em Educação
A
Profª. Drª. Daniela Auad, da Unifesp, conduziu
este eixo sob uma perspectiva diferente ao focar em questões
relacionadas à identidade sexual. Como transformar
temas como o feminismo e a identidade de gênero
em conteúdos pedagógicos foi um dos questionamentos.
Suas palavras despertaram depoimentos na plateia acerca
de casos de preconceito e intolerância de alunos
religiosos contra homossexuais. Entre os participantes,
a formação a distância e a contratação
de profissionais liberais como docentes foram os grandes
geradores de discussões.
Eixo
5 Financiamento da Educação e Controle
Social
O
Prof. Douglas Izzo, diretor executivo da Apeoesp, abordou
as principais alterações do Fundeb no Congresso,
sua composição e a ampliação
de alunos e de recursos com a mudança do Fundef
para o fundo atual. Ele ainda destacou o piso salarial
nacional, que hoje tem lei específica, e sugeriu
que o Governo do Estado aplique os 33% do piso na formação
dos professores. O Prof. Me. Salomão Ximenes, da
Ação Educativa, também salientou
a importância do piso vinculado à carreira.
Eixo
6 Justiça Social, Educação
e Trabalho: Inclusão, Diversidade e Igualdade
Para
a Profª. Drª. Maria Teresa Eglér Mantoan,
da Unicamp, a inclusão é o direito à
diferença na igualdade de direitos. Isso
nos dá o direito a ter uma política educacional
em que todos tenham direito à escola comum, e façam
parte do mesmo grupo, com a garantia de atendimento especializado
dentro da escola, pois hoje ela (a escola) é excludente.
As principais discussões se voltaram para a inclusão
de negros, indígenas, deficientes e diversidade
sexual.
Próximos
passos - Todas as propostas apresentadas e debatidas
pela Conferência serão expostas na etapa
estadual da CONAE, programada para os dias 02 e 03 de
outubro no Palácio das Convenções
do Anhembi. O evento dará origem a um relatório
com as deliberações e propostas e será
enviado à Comissão Organizadora Nacional
para, em 2010, se aprovados, integrarem o Documento-Base,
que ditará os rumos do novo Plano Nacional de Educação
(PNE), a ser elaborado pelo Governo Federal, através
do Ministério da Educação.
|
|