Inclusão, formação profissional
e financiamento entram em debate em SP
Felype
Falcão
17/08/2009
No
segundo dia (16) da etapa municipal, em São Paulo,
da Conferência Nacional de Educação
(CONAE), promovida pelo Ministério da Educação,
os debates em torno de um Sistema Nacional Articulado
de Educação, através da construção
de um novo Plano Nacional de Educação, continuaram
de maneira ampla e participativa.
O primeiro colóquio do dia teve como eixo Justiça
Social, Educação e Trabalho: Inclusão,
Diversidade e Igualdade, e foi aberto pela Profª.
Nilde Antonia da Silva Fonseca.
Em sua explanação, ela demonstrou preocupação
com as já aprovadas leis nº. 10.639/03
que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino
a obrigatoriedade da temática História
e Cultura Afro-Brasileira -, e nº. 11.645/08
que acrescenta ao currículo oficial da rede
de ensino a obrigatoriedade da temática História
e Cultura Afro-Brasileira e Indígena.
Segundo a professora, na prática, essas leis que
auxiliariam o processo de inclusão não funcionam.
Para a rede municipal de ensino, estas disciplinas
ainda não existem de fato, porque as escolas não
são sensíveis a questões etnorraciais.
E não vejo isso como uma má vontade dos
professores, mas como despreparo para trabalhar estas
questões dentro do meio educacional, explicou.
Já a Profª. Soraia Alexandre integrou os participantes
acerca do trabalho desenvolvido pela ONG Aldeia, que trabalha
com a educação dos indígenas, na
tentativa de reverter parte da injustiça
social e da exclusão dos direitos humanos sofrida
por eles. A cultura dos povos indígenas
precisa ser respeitada. Hoje, o Brasil tem 225 etnias
com 180 línguas diferentes, compondo uma população
de 512 mil habitantes, segundo dados da Funai. Mas, apesar
do tamanho, não há transferência de
recursos para essa população que fez e faz
parte da história do país, criticou.
Ela ainda apontou a necessidade de um projeto pedagógico
diferenciado para ser utilizado nas escolas indígenas,
com o objetivo de contribuir para a qualidade de vida
desta população, e cobrou a construção
de um documento que não segregue uma população
tão massacrada.
Em torno do mesmo eixo, a Profª. Solange Aparecida
Ribeiro abordou a inclusão de pessoas com deficiência
e a importância de promover mecanismos de acesso
a uma educação digna e igualitária,
do ensino básico ao superior, dando como exemplo
a implantação de tradutores nas salas de
aula para atender a alunos com deficiência auditiva.
O debate deu origem a manifestações e solicitações
de emendas por parte da plenária, que cobrou meios
de combater a evasão escolar de crianças
que sofrem com a identidade de gênero e com a discriminação
sexual, além da criação de escolas
bilíngues para atender os surdos e os surdos-cegos.
Valorização - O colóquio seguinte
colocou em pauta um dos temas que mais costuma suscitar
debates: Formação e Valorização
dos Trabalhadores em Educação. De
cara, o vereador e professor Cláudio Fonseca, um
dos convidados da mesa, afirmou que uma política
continuada de formação aliada à remuneração
financeira adequada são os principais pontos para
a valorização profissional.
Ele ainda reconheceu que educadores, Estado e sociedade
devem carregar juntos a responsabilidade pelas melhorias
na Educação, sem apontar culpados. E como
forma de contribuir para uma melhor formação
crítica-cultural de alunos e professores, sugeriu
a ampliação de atividades extraclasse como
visitas à museus, projeções cinematográficas,
espaços culturais.
Fonseca também sugeriu a construção
e a manutenção de centros de formação
de professores em todas as cidades do país, além
de cobrar respeito ao piso salarial nacional, já
que muitos municípios têm driblado a lei
incluindo bônus e gratificações para
alcançar o mínimo de R$ 950 estabelecido
pela lei.
Aproveitando o gancho do tema, a Profª.
Maria Izabel Azevedo Noronha, também integrante
do Conselho Nacional de Educação, afirmou
que o piso salarial do Magistério foi uma conquista,
que beneficiou a maioria dos municípios do país,
nos quais não se ganhava esse valor. Ela
também destacou a importância de uma atual
sanção do Governo que transformou o funcionário
de escola em profissional da Educação.
Para a professora, são imprescindíveis as
melhorias das condições de trabalho nas
unidades, com pessoal de apoio qualificado e com a criação
de mecanismos que tornem atrativa a carreira para os profissionais
da educação básica.
Noronha ainda engrossou o coro dos que afirmar que a formação
inicial precisa ser presencial, sem usar a falta de professores
para justificar essa modalidade de educação.
Para encerrar sua palavra, a professora usou um trecho
das Diretrizes Nacionais para os Novos Planos de Carreira
e de Remuneração, documento do qual foi
relatora.
Em que pese todos os avanços que se possa
ter em termos de estrutura e infraestrutura na escola
pública, se o ser humano que nela trabalha e estuda
não tiver suas necessidades atendidas, ela não
alcançará o êxito esperado pela sociedade.
É preciso recuperar a escola como processo de humanização.
O ofício do professor não é parte
de uma engrenagem, mas é único, humano e,
como tal, precisa ser apoiado e reconhecido.
Financiamento - O quinto e último colóquio
girou em torno de um dos eixos mais aguardados do evento:
Financiamento da Educação e Controle
Social. Coordenador da Campanha Nacional pelo Direito
à Educação, Daniel Cara destacou
a influência que a CONAE pode exercer sobre o tema
e forneceu detalhes do financiamento do Fundeb (Fundo
de Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica e de Valorização dos Profissionais
da Educação).
Apesar de aprovar os aperfeiçoamentos trazidos
pelo Fundeb para o financiamento da educação
básica, Daniel Cara sugeriu que o Fundo tenha como
referência o CAQ (custo aluno-qualidade), índice
que assegura um patamar financeiro com o mínimo
de qualidade por aluno. Levando em conta este índice,
o valor atual aplicado pelo Fundeb ainda está longe
do proposto.
Daniel também cobrou o fim da DRU (Desvinculação
de Recursos da União) para todas as áreas,
e não somente na Educação, pois,
segundo ele, o indivíduo precisa ter garantido
o direito à cidadania plena; e ainda propôs
a criação de um mecanismo que obrigue os
municípios que recebem royalties de petróleo
a investí-los em Educação.
Já o presidente da Câmara de Educação
Básica do Conselho Nacional de Educação,
César Callegari, criticou o Fundeb por não
subvincular recursos a determinadas atividades como, por
exemplo, a inclusão e educação para
etnorraciais. Ele ainda reconheceu a necessidade de uma
rede de educação interligada nas três
esferas, com objetivos e metas educacionais estabelecidos,
para que, assim, possa haver um controle social, além
de se mostrar a favor da escola em tempo integral.
Callegari também sugeriu a revisão dos artigos
70 e 71 da LDB, que tratam dos gastos de manutenção
e desenvolvimento de ensino. Eles precisam ser explicitados
para que haja um maior controle, declarou.
Por fim, o Prof. João Alberto Rodrigues de Souza
deu sua opinião sobre tema. Para ele, o Fundeb
ampliou o aporte de recursos da União para a Educação
de R$ 500 mi para R$ 5 bi, o que contribuiu para reduzir
as disparidades regionais. Mas na maior parte do
país, não implica no aporte de novos recursos,
somente nos Estados que não atingem as metas mínimas
estabelecidas, complementou.
Rodrigues ressaltou ainda a necessidade de dobrar o investimento
em educação dos atuais 4,6% do PIB (R$ 67
bi) para 10%, além da concretização
da reforma tributária. A exemplo de Daniel Cara,
o Prof. João Alberto também se posicionou
a favor do fim da DRU, o que garantiria R$ 7 bi a mais
para o Ministério da Educação.
Próximos passos - Todas as propostas apresentadas
e debatidas pela Conferência serão expostas
na etapa estadual da CONAE, programada para os dias 02
e 03 de outubro no Palácio das Convenções
do Anhembi. O evento dará origem a um relatório
com as deliberações e propostas e será
enviado à Comissão Organizadora Nacional
para, em 2010, se aprovados, integrarem o Documento-Base,
que ditará os rumos do novo Plano Nacional de Educação
(PNE), a ser elaborado pelo Governo Federal, através
do Ministério da Educação.
|
|