Capital paulista amplia debate em torno do novo
PNE
Felype
Falcão
17/08/2009
Representantes
do Poder Executivo, gestores públicos e privados,
professores, estudantes, pais, entidades sindicais, movimentos
sociais e conselhos de educação se encontraram
no último final de semana, dias 15 e 16 de agosto,
no Expo Center Norte, em São Paulo, para participar
da etapa municipal da Conferência Nacional de Educação
(CONAE), promovida pelo Ministério da Educação.
Com o tema Construindo o Sistema Nacional Articulado
de Educação: o Plano Nacional de Educação,
Diretrizes e Estratégias de Ação,
os participantes discutiram pontos como o papel do Estado
na garantia do direito à Educação
de Qualidade; democratização do acesso;
formação e valorização dos
profissionais da Educação; financiamento
de políticas educacionais; políticas de
inclusão, diversidade e igualdade.
Na abertura do evento, o presidente da Comissão
Organizadora Estadual, José Adinan, comemorou o
fato de mais de 2 milhões de pessoas estarem discutindo
o novo Plano Nacional de Educação nos quatro
cantos do país. É uma excelente oportunidade
para que os mais diversos segmentos da rede educacional
do país apresentem suas propostas e ditem
os novos rumos da educação no Brasil,
salientou.
Em seguida, a representante do MEC em São Paulo,
Iara Bernardi, reafirmou que os debates realizados em
todo o país irão dar respaldo para o novo
Plano Nacional de Educação. São
Paulo está tendo uma atitude pioneira em criar
um Plano de Educação para a Cidade,
afirmou, em referência ao lançamento do Plano
Municipal de Educação no evento.
Alexandre Schneider, secretário de Educação
do município, destacou a necessidade de discutir
o tema com movimentos sociais e entidades, e frisou a
importância da construção de um Plano
de Educação para a rede municipal de ensino.
É positivo para todos. Ganha a escola, ganha
o aluno, ganha o professor e a sociedade, pois a partir
de agora teremos um plano com metas e determinações
a cumprir, independente de qual seja o Governo,
disse, assinando em seguida o termo de compromisso do
Plano Municipal de Educação.
Após a abertura, foi feita a leitura do Regimento
Interno da Conferência para, em seguida, dar início
a série de debates. O primeiro colóquio
teve como eixo Qualidade da Educação,
Gestão Democrática e Avaliação.
A explanação inicial veio com o Prof. Cleiton
Gomes da Silva. Para ele, a discussão da qualidade
da educação começa na valorização
salarial do profissional de carreira, sem terceirizações,
além de aumento de recursos do PIB destinados à
Educação. Gomes também destacou a
presença do professor em uma única escola,
sem a necessidade de ficar se deslocando.
Para a Profª. Fátima Camargo, é
impossível discutir qualidade e avaliação
sem falar em gestão da escola (direção
e composição técnica),
em uma equipe capaz de implementar um projeto pedagógico
de modo eficiente. Segundo a professora, a formação
profissional é permanente, não se esgota
na academia, na licenciatura ou em uma pós-graduação,
daí a importância de uma formação
profissional de qualidade.
Houve um momento de culpabilização
dos professores por conta das mazelas nas escolas. Há
uma cultura escolar que precisa ser revisitada, revigorada,
pois hoje ela aliena o pensar dos alunos, coordenadores
e professores. A escola de hoje faz muito e pensa pouco,
salientou.
Em virtude das mudanças que enfrentamos,
precisamos de profissionais com uma visão mais
sistêmica, mais ampla, com um olhar para a igualdade,
completou.
Camargo ainda afirma que houve uma democratização
da escola, que passou a receber um quadro de alunos diversos,
de diferentes tipos, sem uma consequente adaptação.
Há um ideal de aluno que só existe
na nossa cabeça. Precisamos fazer a escola trabalhar
com a diferença.
Ela concluiu sua exposição afirmando que
a escola precisa promover a experiência de pensar
e despertar nos alunos a capacidade de reflexão
crítica. Uma revitalização
escolar política, antes de mais nada.
Participação dos pais De acordo
com a Profª. Maria Benedita de Castro de Andrade,
uma gestão democrática necessita da participação
dos pais e isso só se dá, de fato, com o
fortalecimento dos conselhos de escola.
Castro ainda teceu críticas à administração
pública que, segundo ela, cria regras para enquadrar
o professor, tirando dele a autonomia e a possibilidade
de avançar nos projetos e finalizou defendendo
a realização de concursos públicos.
O concurso favorece a profissionalização
dos ocupantes de cargos. Para a continuidade das políticas
de Estado, é fundamental a permanência do
profissional.
Ao final deste primeiro debate, a maior parte das emendas
sugeridas veio dos movimentos sociais representados no
evento, que cobraram maior participação
e atenção nas propostas.
Educação de qualidade Papel
do Estado na Garantia do Direito à Educação
de Qualidade: Organização e Regulação
da Educação Nacional foi o eixo do
segundo colóquio, que teve início com a
palestra do Prof. Carlos Ramiro de Castro. Ele criticou
a ausência de investimentos do Estado, que aplica
apenas entre 3% e 4% do PIB na Educação,
e afirmou que a descontinuidade das políticas educacionais,
tratadas como política de Governo, e não
de Estado, impedem a existência de uma educação
de qualidade.
As escolas estão cada vez mais autoritárias,
impedindo a participação de pais e alunos
na gestão escolar. Além disso, há
uma divisão dos ensinos: educação
infantil, a cargo do município; ensino fundamental,
pelo município e pelo Estado; e o médio,
nas esferas municipal, estadual e federal, sem qualquer
tipo de articulação entre as três,
explicou, mostrando a importância da integração
que um novo PNE pode desenvolver.
Já a Profª. Teresinha Chiappim criticou a
falta de vagas para a educação infantil
nas escolas do município e ressaltou, como os demais,
a responsabilidade em integrar a educação
nas três esferas. Ela ainda afirmou que a avaliação
meritocrática não deve existir, tampouco
rankear alunos, escolas e professores. Não
importa o lugar em que se esteja no ranking. Deve haver
igualdade de conhecimento e de atenção.
Chiappim também demonstrou sua desaprovação
com relação ao ensino à distância:
A formação à distância
pode até ser feita como uma forma de complementação
profissional, mas jamais para a formação
inicial do professor. Você confiaria numa manicure
ou num garçom que fizeram curso à distância?
Como preparar um professor para uma sala de aula, sem
que ele tenha passado pela prática? Vocês
confiariam seus cuidados a este tipo de profissional?,
questionou.
Representante da regional do MEC em São Paulo,
a Profª. Iara Bernardi citou pontos da Constituição
que ainda não foram cumpridos. Entre eles, a erradicação
do analfabetismo (ainda há 14 milhões de
analfabetos no Brasil), universalização
do atendimento escolar, melhoria da qualidade do ensino
e formação para o trabalho.
Ela também apontou a necessidade de um Plano Nacional
de Educação que integre e deixe bem claro
quem cuida do quê (municípios, estados e
governo federal), além de metas que precisam ser
revistas como tornar obrigatório o ensino médio
para todas as crianças e jovens do país
(hoje se pede apenas o nível fundamental).
Escola democrática O último eixo
de discussão do dia 15 foi Democratização
do Acesso, Permanência e Sucesso Escolar.
Para falar sobre o tema, um dos convidados foi o Prof.
José Adinan Ortolan, também presidente da
Comissão Organizadora Estadual da CONAE, que destacou
a importância de uma gestão democrática
de ensino.
Os Conselhos precisam de uma reformulação
na qual possam representar todos os setores envolvidos
na rede de ensino e, assim, se tornem o órgão
máximo deliberativo em termos de Educação.
Os avanços da Educação não
podem ser personificados, como sendo positivo ou negativo
neste ou naquele Governo, daí a necessidade veemente
de um órgão maior, um Colegiado, além
de uma eficiente política de Estado, sugeriu.
Com relação ao acesso, Adinan salienta que
já ocorreram grandes avanços, mas ainda
falta muito para a universalização.
Ele aponta o que chama de dois grandes nós
para este entrave. O primeiro deles é o ensino
superior, que hoje detém apenas 12% da concentração
de estudantes. Sob este aspecto, ele propõe refletir
se as atuais universidades públicas têm democratizado
ou tornado o acesso mais restrito. Outro ponto é
a educação de jovens, adultos e idosos.
Como criar meios para atrair essas camadas à
escola?, questionou.
Integração Professor da Faculdade
de Educação da USP, César Minto creditou
ao poder público parte dos atuais problemas enfrentados
pelas redes de ensino. Os Governos optaram por políticas
focalizadas, priorizando o ensino médio, o que
é um erro, pois a Educação precisa
ser tratada de forma integrada. Hoje, na tentativa de
solucionar este problema, realizam processos de avaliação
de maneiras absurdamente inadequadas, pois não
levam em conta o contexto em que a escola está
inserida, explicou.
O ambiente de casa e o nível de educação
dos pais são exemplos de que a educação
não pode ser tratada separadamente, completou.
Minto ainda destacou a luta pela implementação
do piso salarial nacional, em que um dos fatores positivos
foi a destinação de uma carga horária
exclusiva às atividades pedagógicas, e criticou
a expansão das ETECs em São Paulo, criadas
sem qualquer previsão de recursos. Ele também
reforçou o coro dos demais palestrantes a respeito
da proliferação de cursos à distância,
que promovem a fragmentação pedagógica
e a precarização do trabalho ao utilizar
monitores.
Ao final do colóquio, o público voltou a
sugerir emendas envolvendo os assuntos debatidos. Entre
elas, a criação de escolas bilíngues
(português e libras), o aumento de vagas no período
noturno em universidades públicas, além
de meios para facilitar a inclusão e a democratização
das instituições públicas de nível
superior.
Confira como foi o segundo dia do evento clicando
aqui.
|
|